sexta-feira, 25 de junho de 2010

O fim de tudo

Apenas consigo ouvir meus pensamentos. Todo som emitido do lado de fora é impossível de ser ouvido. É forte demais. Eu não quero ouvir mais nada, eu só quero pensar. Pensar em algo que me faça ao menos esquecer o que se passa diante dos meus olhos, não literalmente, já que não posso mais enxergar nada.
Todos sabiam que um dia esse momento chegaria. Um momento tão esperado por toda humanidade, mas ninguém nunca realmente cogitou a possibilidade de estar tão próximo, era impossível demais. E foi de repente demais.
Em um segundo estávamos sentados em um sofá rindo. É até engraçado pensar nisso dessa forma, como podíamos em um segundo mudar todo o astral de tudo? Como pôde em um segundo o mundo estar com os seus problemas comuns, mas inteiro, e no outro segundo tudo estar acabado?
Eu não me lembro de nada depois do barulho ensurdecedor. Só sei que corri. Corri como se aquilo valesse toda minha vida. E todos a minha volta também corriam. Ninguém sabia para onde correr, só sabiam que precisavam correr. Não importava mais quem você era, com quem você vivia, onde você morava, de quem você não gostava. Só importava salvar suas vidas, e de quem mais você conseguisse ajudar.
E continuei correndo. Estava sozinha, não achava minha família nem amigos. Corria loucamente, a agonia de não saber o que fazer me sufocava. Não sabia o que fazer, não sabia para onde ir. Vi apenas um clarão e mais nada. Depois disso não vi mais nada. Senti uma mão me segurar e me puxar. Eu tropeçava pelo caminho, não conseguia acreditar. Eu queria minha visão de volta, eu queria enxergar.
A pessoa que me puxava para algum lugar que eu não sabia qual era me disse para ter calma, era apenas ela, minha mãe, e agora estava tudo bem. Mas não estava. Eu contei que não conseguia mais ver nada. Ela me levou para algum lugar onde eu pude ouvir as vozes do meu pai e meu irmão.
Ela me disse que agora nós estaríamos seguros, e que uma hora tudo aquilo iria acabar. Os gritos das pessoas me faziam gritar, mas não eu conseguia emitir uma nota sequer. Apenas consigo ouvir meus pensamentos. Todo som emitido lá fora é forte demais.
Eu queria poder ver mais uma vez o rosto dos meus amigos. Queria poder ver mais uma vez o mar. Queria poder ver o por do sol outra vez. Eu estou chorando. Eu só quero abrir os olhos outra vez. Eu quero poder ver pelo menos uma última vez. E como eles podem estar tão próximos de mim, como posso sentir todos eles, e não poder vê-los?
Ouvi de novo um barulho ensurdecedor. Agora eu consigo ver tudo outra vez. Não sinto mais dor no coração. Eu vejo aqui de cima o mundo caindo aos pedaços. Agora eu estou em um lugar melhor, com as pessoas que eu amo. Foi tudo muito rápido.

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